Em Alta Floresta, no norte de Mato Grosso, a cidade e a floresta dividem o mesmo endereço. Aberto nos anos 1970 no meio da mata amazônica, o município manteve grandes fragmentos de floresta dentro do perímetro urbano. Quem mora ali convive com os macacos e os avista com facilidade. O recordista de aparições é o macaco-prego (Sapajus apella), que perambula pelas ruas, sobe em telhados e entra no comércio.
Essa vizinhança virou objeto de ciência. O projeto Reconecta, responsável pela instalação de pontes de dossel – estruturas suspensas que permitem aos animais atravessar de uma área de floresta para outra -, e a Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat) iniciaram, em 2026, o primeiro censo de primatas da área urbana do município. O levantamento deve ser concluído até o fim deste ano*. O objetivo é saber quantos macacos existem, onde vivem, do que se alimentam e como se comportam. Os dados irão orientar estratégias de conservação e ajudar a avaliar a situação das populações locais.
O censo abrange quatro fragmentos de floresta localizados dentro do perímetro urbano: Reserva Surucuá, Fazenda Anacã, Parque Zoobotânico e Refúgio dos Padres. Em cada área, são cinco dias de trabalho. Na trilha, a equipe anda de botas, devagar, para não fazer barulho e não prejudicar a localização dos animais. Cada encontro vira registro: hora, espécie, número de indivíduos, distância da trilha, atividade e coordenadas geográficas. Do alto, um drone com câmera térmica localiza os animais pelo calor do corpo.
Até agora, as seis espécies previstas para a região foram encontradas: bugio-vermelho (Alouatta puruensis), macaco-aranha (Ateles chamek), macaco-prego (Sapajus apella), mico-de-Schneider (Mico schneideri), macaco-da-noite (Aotus azarae) e zogue-zogue-de-Alta-Floresta (Plecturocebus grovesi). Os registros preliminares indicam maior presença do macaco-prego, mas o número de indivíduos e a estimativa populacional serão conhecidos após a conclusão do censo.
Luan Goebel, biólogo, pesquisador de pós-doutorado da Universidade Federal do Pará (UFPA) e associado ao Instituto Reconecta, diz que os fragmentos abrigam as populações das seis espécies, incluindo as ameaçadas. Depois de analisados, os dados servirão de base para acompanhar os grupos ano a ano, entender os efeitos da urbanização e orientar as próximas ações: pontes de dossel, corredores ecológicos e reflorestamento. Os resultados serão compartilhados com a Fazenda Anacã, a Reserva Surucuá, a prefeitura, o Reconecta e a Unemat, onde estudantes darão continuidade ao monitoramento. O plano é repetir o censo todo ano.

Pesquisadores durante o censo dos primatas/ Foto: Fernando Canton
Na Reserva Surucuá, gerida pela Fundação Ecológica Cristalino (FEC) e com cerca de 60 hectares de floresta nativa próxima ao aeroporto, Liliam Patrícia Pinto, bióloga, primatóloga e professora da Unemat em Alta Floresta, encontrou as seis espécies da região. A reserva tem frutos em fartura, é protegida, não tem caça, desmatamento nem corte seletivo. “É um refúgio para a nossa biodiversidade”, resume. Fernanda Abra, bióloga e coordenadora do Reconecta, reforça que a repetição do levantamento nos próximos anos permitirá medir como a população reage às mudanças da paisagem.
As macaquices do macaco-prego
No perímetro urbano, o macaco-prego não pede licença. Gabriele Santos trabalha em uma loja da cidade e tem uma história para contar. “Eu deixei minha bolsa aberta com um lanche e eu vi ele entrando e levando o pão. Foi engraçado”, conta ela. Há alguns anos, os funcionários do Hotel Floresta Amazônica precisaram mudar a rotina no buffet de café da manhã. “Logo cedinho, enquanto a gente arrumava o buffet e ainda não havia hóspedes, eles entravam e corriam com frutas. Eles andam em bando. O maior chegou a me encarar e levou pão. Eles gostam muito de mamão. Eles ficam escondidos e observando. Quando eu saía, eles entravam correndo. São muito rápidos. O jeito foi fechar algumas portas e ficar sempre de olho”, conta a garçonete Laudicelia de Oliveira Rodrigues.
A espécie Sapajus apella só ocorre na Amazônia e no Cerrado. Entre os primatas do Brasil, usar ferramentas é especialidade do macaco-prego: pedra para quebrar coco, galho para beber água de buraco de árvore. Luan Goebel viu de perto, durante a coleta no Parque Zoobotânico: um macaco-prego levantou a tampa da caixa d’água para beber e, na sequência, roubou um pão. “Nenhuma outra espécie de primata conseguiria ter esses dois feitos, um em seguida do outro”, contou o pesquisador.
Moradores colecionam histórias e fotos dos bichos andando pelo asfalto, subindo em telhados de casas e de lojas do centro, sempre atrás de algo para mastigar. “São os meliantes”, diz um empresário que preferiu não se identificar.

Macaco prego/ Foto: Kacau Oliveira
Segundo Luan, entre as espécies encontradas na cidade, o macaco-prego se destaca pela inteligência e pela habilidade. “Isso é uma combinação de muitos fatores que foram ocorrendo durante a sua evolução, como características anatômicas, o comportamento e a forma como eles socializam. Eles são muito diferentes dos demais”, explica.
Comida não falta para os macacos: os frutos amazônicos estão nos vários fragmentos de floresta espalhados pela cidade. O problema é que muitos moradores alimentavam os animais com frutas, e eles se acostumaram a receber comida. Para tentar resolver a situação, a prefeitura lançou a campanha “Alta Floresta não alimenta animais silvestres”.
José Alessandro Rodrigues, da Secretaria de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, conta que, por um tempo, moradores levaram comida pronta e restos do jantar para os bichos. Óleo, sal e açúcar não fazem parte do cardápio do macaco-prego, que, na floresta, tem uma alimentação composta por 30% a 40% de folhas e frutos, além de consumir ovos e filhotes. A campanha também busca prevenir a transmissão de doenças entre animais e humanos. “A pessoa não imaginava o tamanho do impacto que estaria causando a longo prazo nesses animais”, diz Alessandro

O macaco bugio-vermelho /Foto: Kacau Oliveira

O mico schneideri / Foto; ivã Schuster