Por Josana Salles
Em meio à terceira onda de calor enfrentada por Cuiabá neste ano, estudos mostram como a perda de vegetação e a urbanização podem agravar as altas temperaturas na capital. Relatório divulgado pelo Instituto Centro de Vida (ICV) indica que Cuiabá perdeu o equivalente a 7.211 hectares de vegetação nativa entre 1985 e 2024. O levantamento atualiza dados de um estudo publicado em 2019, elaborado a partir do Projeto MapBiomas, que monitora por satélite a cobertura do solo no Brasil.
Estudos anteriores desenvolvidos pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) já apontavam perda expressiva de vegetação no leste e oeste da cidade, redução expressiva de espécies de plantas do cerrado, como o ipê, e diferenças de temperatura que chegam a 10 graus entre uma região e outra da capital.
O estudo original do MapBiomas, referente ao período de 1988 a 2017, indicou que a capital perdeu 55.763 hectares de vegetação nativa em 30 anos — o equivalente a 17% das áreas verdes do município. O montante corresponde a 2,5 vezes a extensão da zona urbana da cidade, de 24.412 hectares. A contribuição do ICV foi transformar os números do MapBiomas em análise espaço-temporal, com comparação de imagens de satélite de 1988 e 2018, que identificou os vetores da perda: expansão urbana, ocupações irregulares, obras públicas e atividades agropecuárias.
A redução de áreas verdes também foi abordada por pesquisadores da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). A dissertação de mestrado “Análise Espacial da Cobertura Vegetal do Perímetro Urbano de Cuiabá–MT”, defendida em 2023 por Joelson Cardozo de Arruda, no Programa de Pós-Graduação em Ciências Florestais e Ambientais, mapeou a cobertura vegetal por sensoriamento remoto e concluiu que a cidade tem 26,63% de cobertura vegetal no perímetro urbano, abaixo do ideal. A distribuição é desigual: a região Sul concentra 31,97%, a Oeste 26,96%, a Leste 17% e a Norte 16,82%. O estudo também apontou que Cuiabá tem 10,961 m² de área verde por habitante, abaixo do mínimo de 12 m² recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS).
A orientadora da pesquisa, a professora doutora Jaçanan Eloisa de Freitas Milani, engenheira florestal e docente do Departamento de Engenharia Florestal, afirma que o déficit se acumula há décadas. “A questão principal é que historicamente esse déficit está se acumulando. Nós estamos com uma ausência de um instrumento de planejamento ambiental eficaz para resolver esse problema. São quase 30 anos de perda, somado aos dados da dissertação do Joel, de 2023, que mostra que esse problema não foi corrigido”, disse. Segundo ela, a perda se concentrou nas regiões norte e leste, com 82% da superfície urbanizada, e produziu “vazios ecológicos estruturais” que comprometem o microclima e a permeabilidade do solo. A professora também citou a perda de espécies do cerrado — como ipê, pequizeiro, baru, jatobá e sucupira — e a substituição por espécies exóticas, como oiti, sibipiruna e nim.

Foto: Reprodução/G1
Menos vegetação e temperaturas cada vez maiores
Duas pesquisas ligadas à UFMT ajudam a dimensionar as ilhas de calor em Cuiabá. A primeira, realizada entre 2017 e 2018 por pesquisadoras da Faculdade de Engenharia e da Pós-Graduação em Física Ambiental, mediu diferenças de até 4,38 °C no período quente-seco, magnitude classificada como “forte”, e de até 2,66 °C no quente-úmido (“moderada”), com as maiores temperaturas registradas na região do cruzamento das avenidas Historiador Rubens de Mendonça e Miguel Sutil e ao longo desses corredores de tráfego intenso. Já a dissertação de 2019, defendida no Programa de Pós-Graduação em Geografia, documentou ilhas de calor noturnas de até 6,8 °C e uma amplitude de 11,3 °C entre o centro e a periferia, apontando o centro de Cuiabá como a área consistentemente mais quente. Nos dois trabalhos, a expansão urbana e a impermeabilização do solo — asfalto e concreto — aparecem como fatores que agravam o aquecimento dessas regiões mais adensadas e com pouca vegetação.
A pesquisadora do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), Luciana Gatti, explica o mecanismo: “As árvores têm a capacidade de abaixar a temperatura. Quando estão pegando a água que está no solo e jogando na atmosfera, a água, para sair do estado líquido e ir para o vapor, consome energia na faixa do calor. Conforme está evapotranspirando, está reduzindo a temperatura.”

Foto: Edson Rodrigues/Secopa
O que diz a prefeitura
A Secretaria Municipal de Planejamento e Desenvolvimento Urbano informou que vem fortalecendo o planejamento territorial e as políticas de preservação ambiental. A gestão afirma que, entre janeiro e julho deste ano, o Horto Florestal distribuiu 13.993 mudas e foram plantadas 2.962 árvores em espaços públicos, por meio do Programa Municipal de Arborização Urbana. O Plano Diretor prevê o plantio de 20 mil árvores entre 2026 e 2029 e o aumento anual de 5% da arborização urbana. Sobre o VLT, obra da Copa de 2014 que exigiu a retirada de cerca de 2.500 árvores, a Prefeitura ressalta que as intervenções iniciadas antes de 2014 não estiveram sob responsabilidade da atual gestão.
O Ministério Público de Mato Grosso (MP-MT) também atua no tema. Em junho de 2026, ajuizou ação civil pública contra a empresa Cidade Jardim Incorporações (Ginco), a Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema-MT) e a prefeitura de Cuiabá para suspender a implantação do empreendimento “Cidade Jardim”, no Contorno Leste, por desmatamento de centenas de hectares, supressão em áreas de preservação permanente e danos à reserva legal, com prejuízos estimados em R$ 67,9 milhões. A ação pública ainda não foi julgada pelo TJMT.