Por Adriana Mendes
Quem passa pelas trilhas do Parque Mãe Bonifácia para uma caminhada ou mesmo uma corrida pode não saber, mas divide também o espaço com tamanduás-bandeira, capivaras, pacas e até uma família de veados. O parque é considerado o pulmão da capital mato-grossense por estar localizado em área nobre e central da cidade.
Criado pelo ex-governador Dante de Oliveira em uma área que antes abrigava o antigo 16º Batalhão de Caçadores do Exército, hoje 44º Batalhão de Infantaria Motorizado, o parque carrega no DNA a explicação para essa biodiversidade improvável. A mata do local é originalmente interligada ao Ribeirão Mãe Bonifácia, quando o curso d’água ainda não era poluído, e ao Rio Cuiabá, formando um corredor natural que até hoje funciona como rota de passagem e refúgio para a fauna regional, especialmente nos períodos de queimadas.
“Aqui não foi introduzido nenhum animal cativo. São animais migratórios, eles vieram e permanecem”, diz o coronel da Polícia Militar Celso Benedito Pinheiro, que gerencia a unidade de conservação há 16 anos e conhece cada palmo da área. Para ele, avistar um desses animais ainda é motivo de celebração. “Eu mesmo ganho meu dia quando vejo um desses bichos aqui dentro”, conta.
Uma lista que surpreende
Além dos pássaros e dos saguis, os moradores com mais registros e queridos pelos frequentadores, o parque tem paca, inclusive com filhotes; tamanduá-bandeira com cria e tamanduá-mirim; cutia; capivara; lobinho-do-mato, conhecido também como lobete; veado e gato-do-mato. Andando pelas trilhas, em vários trechos os pássaros entoam alto seu canto. O plano de manejo, elaborado em 2013, aponta que a unidade abriga 107 diferentes aves e apenas sete mamíferos.
Entre todas as espécies, o veado talvez seja o símbolo mais improvável. Grande, selvagem, sem coleira e sem convite, ele chegou pela mata e ficou. O empresário Ernane Monteiro, que faz caminhada há 16 anos no local, conta que foi surpreendido com o animal passando rapidamente em sua frente. “Foi muito bom sentir que a natureza está viva dentro da cidade. Traz benefícios para nossa alma e nosso bem-estar”, destacou.
“Eu já vi cutia, paca, tatu, passei até por uma cobra no meio da pista”, conta uma outra frequentadora, que pratica caminhada regularmente.

Foto: eh fonte
Nenhum dos animais foi capturado, transferido ou introduzido pela gestão do parque. Eles simplesmente chegaram, pela mata, pelo corredor que ainda conecta a área ao rio, e ficaram. Há frequentadores que já tiveram o privilégio de avistar uma família inteira de veados, três animais juntos, caminhando pelo parque como se a cidade ao redor não existisse. É o tipo de cena que, no centro de uma capital com cerca de 600 mil habitantes, só é possível porque a mata foi preservada.
A lista, aliás, pode ser ainda maior do que os registros confirmam. “Nós tínhamos uma jaguatirica que era sempre vista, mas faz tempo que a gente não vê. Tem um jacaré também, mas que foi visto apenas pelos funcionários”, relata o treinador Emerson Perin, que acompanha atletas que correm na região.
“É uma sensação especial poder fazer registros de tantos animais diferentes no parque. Muito bom conviver de perto com a nossa fauna regional mesmo estando no meio da cidade, entre tantos prédios”, afirma Rafaela Piedade Guimarães, analista de sistemas que caminha quase diariamente no Mãe Bonifácia.
O perigo invisível vem da boa intenção
Se a fauna impressiona, o maior risco que ela enfrenta tem cara de inocência: é o visitante bem-intencionado que estende a mão com uma maçã do amor para um sagui.
Vinícius Brita, médico veterinário e analista de meio ambiente da Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema), explica que o açúcar processado presente nesse tipo de alimento já é prejudicial por si só. Mas há um perigo ainda mais silencioso. “O vírus do herpes, que cerca de 90% da população humana carrega, pode ser transmitido aos primatas pelo simples contato ou pela oferta de comida. Para os saguis, ele é fatal”, alerta o veterinário. “Pode dizimar populações inteiras.”
O alerta não é teórico. Em 2020, o parque ficou fechado por quase um mês após a morte de 16 saguis vítimas de infecção por herpes simplex. A unidade foi interditada no dia 30 de outubro para varredura sanitária e isolamento dos animais, e reaberta em 28 de novembro. O caso reforçou o alerta das autoridades para que visitantes não alimentem os animais.
Por isso, a entrada de alimentos é proibida. A lógica é simples e vale para qualquer interação com os bichos: o que parece afeto pode ser sentença de morte. “Quando a gente interfere, pode causar um desequilíbrio e até a morte dos animais”, resume Brita.
O parque também não tem estrutura para resgates fora de seus limites. Quem encontrar um animal silvestre em situação de risco na cidade deve acionar o Batalhão Ambiental ou o Corpo de Bombeiros.

Foto: eh fonte
Verde no meio do concreto
Com fluxo de 1.000 a 1.500 pessoas nos fins de semana, o suficiente para lotar os estacionamentos, e cerca de 500 visitantes nos dias úteis, o Parque Mãe Bonifácia é um dos espaços verdes mais frequentados de Cuiabá. O movimento se concentra no início da manhã e no final da tarde, horários em que a chance de um encontro com a fauna também é maior.
O parque está aberto todos os dias, das 6h às 18h, para trilhas e academia ao ar livre, na Avenida Miguel Sutil. A entrada é gratuita. Basta chegar, caminhar, correr e estar atento. Em algum momento, a mata devolve o olhar.