Entidades são contra instalação de antenas no parque de Chapada; ICMbio se cala

Por Josana Salles

Duas frentes distintas, uma representando profissionais do turismo e outra reunindo artistas, se manifestaram contra a instalação de uma estação de rastreio, controle e recepção de dados de satélites do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) no interior do Parque Nacional da Chapada dos Guimarães, em Mato Grosso. O projeto foi apresentado na última reunião do conselho do parque, realizada na semana passada.

O ICMBio, órgão federal responsável pela gestão da unidade de conservação, foi procurado para comentar as manifestações e a situação da estação do Inpe, mas não respondeu.

A Associação de Guias e Condutores de Ecoturismo da Chapada dos Guimarães (AGCE) reconhece a relevância científica do empreendimento, mas defende que a estrutura, composta por quatro antenas de grande porte e diversas outras instalações, “deve ser construída em qualquer outro lugar adequado, mas nunca dentro desse parque nacional ou em seu entorno imediato”.

Na mesma direção, o Movimento Artistas pela Natureza divulgou manifesto em que declara “firme oposição à construção e implantação” da mesma estação. O documento reconhece “a inegável importância científica do projeto”, mas argumenta que “a ciência e a arte devem caminhar juntas no respeito à integridade da Terra” e que “retalhá-la com obras desse porte é ferir uma obra-prima da própria natureza”.

Ambos os manifestos convergem em uma série de demandas ao poder público. A AGCE pede “a agilização da regularização fundiária, com mais recursos financeiros para a indenização das áreas prioritárias e a formação de uma força-tarefa para acelerar esse processo, que se arrasta desde sua criação”. Os artistas reforçam o mesmo ponto, exigindo que “o Estado destine recursos financeiros suficientes para a indenização das áreas prioritárias e crie uma força-tarefa para encerrar um processo que se arrasta há décadas”.

Quanto à gestão da unidade de conservação, a AGCE cobra “o aumento da equipe do ICMBio, órgão gestor do parque, que tem uma equipe reduzida e enormes demandas de todos os tipos de serviços dentro da UC, o que provoca, muitas vezes, a morosidade no atendimento a essas demandas”. O Movimento Artistas pela Natureza também aponta que “o órgão gestor padece com um quadro reduzido frente a demandas gigantescas, gerando uma morosidade que sufoca a conservação e o atendimento à sociedade”.

Foto: Mario Friedlander

As duas entidades também defendem o fortalecimento do ecoturismo. Outro ponto comum é a exigência de mais participação social. A AGCE demanda “um Conselho Consultivo mais ativo e motivado na defesa dos interesses do parque nacional e da sociedade local”. O manifesto artístico pede “um Conselho Consultivo ativo, pulsante e motivado, que defenda os interesses do parque e dialogue com a sociedade civil”.

Os dois documentos encerram com o mesmo apelo: “Deixem nosso Parque Nacional em Paz”.

Justificativa do Inpe

De acordo com o catálogo de projetos do instituto para 2026, há necessidade de buscar um novo local para as antenas porque problemas técnicos estão comprometendo a operação atual em Cuiabá. Segundo o Inpe, há “interferência na recepção dos dados de imagens devido às interferências da rede de telefonia celular nos entornos”, além do “aparecimento de novas edificações prediais ao redor do atual sítio na capital mato-grossense”, que ameaçam causar bloqueio de sinais utilizados para o “rastreio e controle de satélites”.

A solução técnica identificada pelo instituto foi “a utilização de um terreno próximo ao estacionamento do Parque Nacional da Chapada dos Guimarães”, que seria disponibilizado pelo ICMBio. De acordo com o documento, o ponto está a 17,3 km do Centro Geodésico da América do Sul, posição estratégica que, segundo o instituto, garante “que a região de cobertura das antenas abranja todo o território nacional”.

Foto: Mario Friedlander

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