Pontes registram 15 mil travessias de macacos, mas atropelamentos persistem em Alta Floresta
Por Josana Salles
O atropelamento de um zogue-zogue-de-mato-grosso (Plecturocebus grovesi) no início de junho, em Alta Floresta, a 800 km de Cuiabá, reacendeu o alerta sobre a vulnerabilidade dos primatas raros que vivem no perímetro urbano do município, no norte de Mato Grosso. O animal, também conhecido como zogue-zogue-de-alta-floresta, foi resgatado após mobilização de moradores do grupo de WhatsApp “Fauna Urbana AF” e encaminhado para atendimento veterinário com sinais de trauma interno.
O caso ocorreu em uma cidade que, desde 2024, testa pontes de dossel para reduzir atropelamentos de fauna. As sete estruturas instaladas pelo programa Alta Floresta Não Atropela já registraram quase 15 mil travessias de animais em 15 meses de monitoramento, mas os acidentes continuam a desafiar pesquisadores, moradores e o poder público.
O resgate foi efetuado pelo Corpo de Bombeiros, e a Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema) providenciou o encaminhamento do primata para uma clínica veterinária conveniada na cidade de Sorriso. Segundo os responsáveis pelo atendimento, o exemplar resgatado não apresentava lesões aparentes, mas tinha sinais de trauma interno e segue sob cuidados veterinários.
A espécie foi descoberta por cientistas há cerca de seis anos e é classificada pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) como um dos 25 primatas mais ameaçados do mundo. O incidente reflete a vulnerabilidade desses animais em áreas urbanas fragmentadas.
O primatólogo Gustavo Canale, professor da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), explica que o zogue-zogue-de-alta-floresta ocorre exclusivamente no estado, em regiões da Amazônia mato-grossense sob pressão de desmatamento e conversão de solo para plantio de soja, milho e pecuária. Segundo o pesquisador, “a espécie é estritamente florestal e raramente utiliza o chão, fazendo-o apenas em busca de alimento ou para transitar entre grupos. Por essa característica, o isolamento de fragmentos de mata torna os atropelamentos um efeito crítico para a sobrevivência da população”.
A frequência de incidentes com a fauna silvestre em Alta Floresta é alta, conforme relata a secretária municipal de Meio Ambiente, Gercilene Meira. Nos últimos seis meses, foram registrados atropelamentos de macacos-aranha, micos-de-schneider, macacos-prego e outros exemplares de zogue-zogue-de-alta-floresta. A secretária afirma que serão instaladas novas pontes de travessia nos locais onde os atropelamentos estão sendo registrados. O Corpo de Bombeiros mantém uma rotina de aproximadamente um atendimento diário para resgate de animais silvestres no município.
A bióloga Maria Lima de Freitas, moradora e motociclista na cidade há 12 anos, relata experiências frequentes de risco envolvendo fauna e trânsito. Em seus trajetos, Maria observou animais como capivaras, cutias e macacos atravessando vias públicas de forma repentina, forçando condutores a realizarem frenagens bruscas. Em diversas ocasiões, a bióloga precisou interromper o trânsito e sinalizar para outros motoristas a fim de garantir a travessia segura dos animais e evitar colisões.
Para mitigar esses riscos, o programa Alta Floresta Não Atropela, liderado pela bióloga Fernanda Abra, do projeto Reconecta, instalou sete pontes de dossel em 2024. “As pontes trazem um pacote tecnológico ‘3 em 1’, com três designs que se adequam a diferentes formas de locomoção dos animais: a cruzeta, o single line e um cabo auxiliar”, explica.

Foto: divulgação
Fernanda conta que, em 15 meses de monitoramento, as estruturas registraram quase 15 mil travessias de seis espécies diferentes de primatas, além de animais como tamanduás-mirins e gambás.
Em 2026, o cronograma de expansão prevê a instalação de mais oito pontes artificiais pelo projeto Reconecta, de Fernanda Abra, em parceria com a Prefeitura de Alta Floresta e parceiros locais. A nova fase conta com o apoio da Energisa para realizar adequações na rede elétrica, como o rebaixamento de fiação e o isolamento de cabos.
Fernanda Abra informa que, na rua onde o zogue-zogue foi atropelado, duas pontes estão previstas, mas a instalação aguarda, desde outubro de 2024, a conclusão dos trabalhos na rede elétrica pela concessionária de energia. A Energisa foi procurada, mas não respondeu até o fechamento desta reportagem.
Além de Alta Floresta, o Projeto Reconecta também atua em rodovias federais. Atualmente, a iniciativa mantém outras 30 passagens de fauna em um trecho de 125 quilômetros da BR-174, que cruza a Terra Indígena Waimiri Atroari, entre os estados do Amazonas e de Rorai

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