Por Josana Salles
Uma pesquisa científica pioneira, publicada no periódico internacional EcoHealth em abril de 2026, revelou uma descoberta preocupante: pela primeira vez, cientistas identificaram a presença do vírus da hepatite B humana (HBV) em primatas neotropicais selvagens na Amazônia brasileira, com registros em áreas impactadas pelo desmatamento em Mato Grosso, incluindo a região de Comodoro, e em Rondônia.
O estudo aponta que o avanço do desmatamento, a destruição ambiental e a crescente invasão humana nos habitats desses animais estão favorecendo a transmissão de doenças de humanos para animais, criando uma nova e séria ameaça para a biodiversidade da região.
O trabalho reuniu um consórcio internacional de cientistas de instituições renomadas, incluindo a University of Salford, na Inglaterra, o Center for International Forestry Research (CIFOR), a Fundação Oswaldo Cruz Rondônia (Fiocruz/RO), a Universidade Federal de Rondônia (UNIR), a Virginia Commonwealth University, o INCT-EpiAmO e a Universidade Federal do Amazonas (UFAM).
A equipe analisou minuciosamente amostras de sangue e de tecido hepático, do fígado, de 88 primatas pertencentes a 28 espécies e 13 gêneros distintos, como Cebuella, Saguinus, Aotus, Saimiri, Cebus, Sapajus, Alouatta, Ateles chamek, Lagothrix, Plecturocebus, Pithecia, Chiropotes e Cacajao.
O impacto do desmatamento na taxa de infecção
Para entender o impacto da atividade humana, os pesquisadores dividiram os animais analisados em dois grupos, com base em sua origem geográfica:
Áreas impactadas (Rondônia e Mato Grosso): este grupo reuniu 49 indivíduos de 17 espécies localizadas em áreas que sofrem com o desmatamento e a forte presença humana. No norte de Mato Grosso, por exemplo, destacam-se espécies como Alouatta puruensis, Ateles chamek e Sapajus apella. Nesse grupo, os cientistas detectaram o vírus da hepatite B em 17 macacos, revelando uma alarmante taxa de infecção de 34,7%.
Áreas preservadas (Alto Rio Japurá, Amazonas): o grupo de comparação foi composto por 39 macacos de 11 espécies que vivem em florestas densas e remotas, consideradas pouco afetadas por atividades humanas. Nesse grupo, nenhum animal apresentou o vírus da hepatite B.
A análise genética de cinco amostras infectadas confirmou a presença dos genótipos A e D do vírus, que são exatamente os mesmos que circulam entre as populações humanas daquela região amazônica, reforçando a origem humana da infecção.
Humanos como transmissores: o alerta dos especialistas
O primatólogo Jean Boubli, pesquisador da University of Salford e um dos autores do artigo, explica que o mecanismo exato de contágio ainda está sendo investigado, visto que o vírus da hepatite B é transmitido principalmente por fluidos corporais, sangue ou contato íntimo. No entanto, ele alerta para hábitos comuns que podem estar por trás dessa transmissão:
“Podemos estar transmitindo vários patógenos que ainda nem sabemos quais são, quando, por exemplo, oferecemos comida humana, como pão ou outro alimento manuseado sem higienização prévia”, ressalta Boubli.
O pesquisador faz questão de enfatizar que os animais não representam perigo de contágio para as populações locais, mas sim o contrário.
“Na verdade, é o inverso. Somos nós, humanos, que estamos, de alguma forma que ainda não sabemos, transmitindo o vírus para alguns primatas que vivem próximos de áreas urbanas”, conclui o primatólogo.
Proximidade perigosa
Os resultados do estudo evidenciam que a densidade demográfica humana e a proximidade física com as populações de macacos são fatores determinantes para a disseminação do vírus.
A destruição das florestas, a ocupação desordenada de terras, a caça e o comércio ilegal de animais silvestres para estimação no sudoeste da Amazônia, região que abrange áreas de Rondônia, Mato Grosso e Amazonas, encurtam as distâncias entre as espécies e expõem a fauna selvagem a patógenos humanos, evidenciando que a saúde humana e a ambiental estão profundamente interconectadas