Sob a Amazônia mato-grossense, o potencial de terras raras

Por Josana Salles

Mato Grosso terá um levantamento aerogeofísico realizado pelo Serviço Geológico do Brasil (SGB) em parceria com a Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico (Sedec-MT). O estudo permitirá identificar as regiões do estado com maior potencial de minerais raros, as chamadas terras raras, fundamentais para a indústria tecnológica global e a transição energética. A última pesquisa geológica realizada pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) identificou a presença de argila iônica de terras raras nas regiões de Juruena e Cotriguaçu, situadas na Amazônia mato-grossense.

A cooperação técnica, prevista para ser formalizada ainda em 2026, busca organizar o setor mineral com base em dados técnicos. Segundo o secretário adjunto de Mineração, Paulo Leite, o planejamento é de longo prazo.

“Estamos trabalhando para organizar a mineração em Mato Grosso a partir de dados técnicos confiáveis e planejamento de longo prazo. Essa cooperação com o Serviço Geológico do Brasil permite ampliar o conhecimento sobre o potencial mineral do Estado e orientar decisões que tragam segurança para quem investe e benefícios para a população”, afirmou.

Os levantamentos aerogeofísicos são ferramentas de alto custo-benefício que permitem mapear o subsolo de forma detalhada, rápida e não invasiva. No Brasil, essa prática começou na década de 1950, mas desde 1971 o SGB coordena as iniciativas.

A técnica utiliza magnetometria e gamaespectrometria, com aeronaves voando a 100 metros de altura em linhas de voo espaçadas a cada 500 metros. Além de identificar minérios, os dados  disponíveis no GeoSGB  auxiliam no planejamento urbano e na gestão ambiental. Até 2014, o esforço nacional já havia coberto 3,7 milhões de km² do território.

Descoberta de argilas iônicas de terras raras 

O mapa aerogeofísico deverá trazer dados mais consistentes sobre a presença de terras raras e aprofundar algumas pesquisas já realizadas. Um estudo inicial da Faculdade de Geociências da UFMT, de 2024,  intitulado “Avaliação do potencial da Unidade Canamã para depósitos supergênicos de elementos terras raras no noroeste de Mato Grosso”, identificou a presença de argilas iônicas de terras raras nas regiões de Juruena e Cotriguaçu, situados na Amazônia mato-grossense. A pesquisa foi realizada pelos geólogos e professores de Geologia da UFMT: Rogério Roque Rubert, Ronaldo Pierosan e o geólogo Guilherme Santana Wilhelm.

As argilas iônicas de terras raras são solos formados pelo intemperismo de rochas que absorvem elementos de terras raras em sua superfície por meio de ligações químicas fracas. Elas são consideradas fontes estratégicas de baixo custo para a extração de minerais críticos. Segundo a pesquisa, a extração nesses depósitos é mais simples e gera menos resíduos comparada a depósitos primários de rocha.

O geólogo Rogério Roque Rubert, professor da UFMT, afirmou que foram identificadas anomalias geoquímicas superficiais semelhantes às de áreas com minas em implantação, mas destacou que as pesquisas ainda são iniciais.

 “O que já sabemos é que existe esse mineral mas ainda não identificamos depósitos com concentrações que viabilizem a exploração”, explicou Rubert. Além da região noroeste do estado, áreas em Aripuanã e Colniza também demonstraram potencial.

Rochas Raras – Foto: Giovanna Simonetti/AUN

A argila iônica de terras raras é fundamental na indústria de tecnologia moderna devido à facilidade de obtenção dos elementos de terras raras que contém. Os principais produtos e aplicações derivados do processamento deste material incluem:

Ímãs superpotentes: utilizados em motores de carros elétricos, turbinas eólicas, discos rígidos e equipamentos de defesa.

Baterias de longa duração: componentes essenciais para veículos elétricos e sistemas de armazenamento de energia renovável.

Tecnologia e eletrônicos: telas de alta definição (smartphones, TVs), componentes de computador e sistemas de defesa.

Catalisadores industriais: empregados em processos químicos e no refino de petróleo.

Equipamentos médicos: aparelhos de ressonância magnética e outros dispositivos de diagnóstico.

Potencial brasileiro e corrida mundial

O Brasil detém o que pode ser a segunda maior reserva de terras raras do mundo, segundo o Serviço Geológico do Brasil. No entanto, sua produção ainda é pequena comparada ao potencial, com apenas uma mina operando inicialmente em Miguaçu, Norte de Goiás, a Serra Verde, que recentemente vendeu parte da ações para a empresa americana USA Rare Earth. Na década de 60, o país foi líder nas exportações, mas o cenário mudou com o domínio da China, responsável por quase 70% da extração mundial.

Guilherme Ferreira, chefe da Divisão de Geologia Econômica do SGB, explicou a evolução do mercado: “O Brasil já possui uma rota de produção de terras raras. Naquela época, produzia-se terras raras a partir de monazita.  Com a mudança da tecnologia e a mudança também global, a China surgiu como a principal fornecedora de terras raras, baseada nesse tipo de depósito de argila”.

Para Mariano Laio de Oliveira, da Agência Nacional de Mineração (ANM), o potencial para entrar na disputa geopolítica é elevado. “No Brasil, de forma geral, o que a gente pode dizer é o seguinte: a gente tem reservas de muitos minerais críticos, só que a gente não tem uma produção condizente com o tamanho das reservas que a gente tem. A maioria dos nossos minerais críticos ainda está, de certa forma, debaixo da terra”, concluiu.

Publicado em