Chapada cresce sob pressão: água vira limite para expansão

O avanço acelerado de condomínios em Chapada dos Guimarães já pressiona a bacia do rio Coxipó e coloca em xeque a capacidade da cidade de garantir água diante do novo ritmo de crescimento.

Por Josana Salles

Nos últimos anos, o município turístico a 65 km de Cuiabá passou por uma expansão imobiliária impulsionada pela migração em busca de clima mais ameno e qualidade de vida. Dados da Secretaria Municipal de Planejamento mostram que, entre 2017 e 2020, foram implantados quatro condomínios, com cerca de 600 lotes. De 2021 em diante, o número saltou: mais de 2 mil lotes foram lançados em ao menos dez novos empreendimentos, ainda em diferentes fases.

O crescimento ocorre sobre uma área ambientalmente sensível, que concentra nascentes e zonas de drenagem da bacia do Coxipó. Segundo o secretário municipal de Planejamento, Aislan Sebastião Cunha Galvão, a liberação dos projetos passa por análise prévia de uso e ocupação do solo. “Chapada adota critérios mais protetivos que a legislação federal em alguns pontos, como a proteção de 100 metros para nascentes e de 50 metros para cursos d’água”, afirma.

Construção de condomínio em Chapada / Foto: Mario Fredlander

Mesmo com regras mais rígidas, o município reconhece que o desafio vai além do licenciamento. Após a etapa ambiental conduzida pela Sema-MT, a prefeitura avalia índices urbanísticos e passou a exigir que novos condomínios tenham reservatórios próprios de água, com possibilidade de apoio ao abastecimento de bairros vizinhos.

A ocupação, no entanto, ainda é gradual. Um condomínio aprovado em 2017 teve a primeira casa com pedido de construção apenas em 2024. “A ocupação plena costuma levar de seis a nove anos”, diz o secretário. Hoje, Chapada soma 13.277 lotes cadastrados, muitos ainda sem obras iniciadas.

Apesar disso, a mudança no perfil da cidade já é perceptível. Ainda predominam casas de veraneio, mas também passam a se consolidar como moradia permanente, ampliando a demanda por água, infraestrutura e serviços urbanos.

O debate ganha dimensão técnica com o geólogo Prudêncio Rodrigues de Castro, professor da UFMT e morador também do município. “Qual é a política de desenvolvimento urbano que o município adota?”, indaga.  Segundo ele, o predomínio de argilito, rocha impermeável, dificulta a infiltração da chuva e impede a formação de lençol freático e aquíferos capazes de sustentar o abastecimento urbano por meio de poços artesianos. Ele também questiona como promover o desenvolvimento urbano se a questão da água ainda não foi resolvida, destacando que as áreas onde é possível obter água subterrânea ficam distantes e têm custo alto para chegar às casas

Foto: Reprodução/Google

Para o pesquisador, a limitação natural deveria orientar o crescimento urbano. Outro ponto é a expansão de novos loteamentos diante da existência de bairros antigos ainda pouco ocupados, como Florada da Serra e Bom Clima.

A combinação entre expansão imobiliária, fragilidade ambiental e restrições hídricas levanta uma pergunta central: Chapada está preparada para crescer no ritmo atual?

Na próxima reportagem: os sinais de contaminação e os impactos já visíveis na qualidade da água.

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