Josana Salles
O rio Coxipó, em sua parte mais alta, na região de Chapada dos Guimarães, é ao mesmo tempo manancial, paisagem e fronteira ambiental. A partir de sua nascente elevada, situada no Horto Municipal, ele integra uma rede hídrica estratégica que ajuda a abastecer cerca de 30% do consumo de água de Cuiabá, mantém parte essencial da dinâmica ecológica do Parque Nacional da Chapada dos Guimarães e sustenta o turismo que fez da região um dos principais cartões-postais de Mato Grosso
Mas esse mesmo território, decisivo para a segurança hídrica regional, vive hoje uma pressão crescente.
Os dados do Diagnóstico do Plano da Bacia Hidrográfica do Alto Rio Cuiabá mostram a dimensão dessa importância. A bacia do rio Coxipó ocupa 680,60 km², desde a nascente até a confluência com o rio Cuiabá, e reúne afluentes como o córrego Salgadeira, o ribeirão Claro e os rios Mutuca e dos Peixes.
O plano chama atenção para a necessidade de uma proteção mais rígida justamente nas partes altas da bacia, que drenam o Parque Nacional e a Área de Proteção Ambiental de Chapada dos Guimarães. A proposta técnica é rever os enquadramentos transitórios e elevar a proteção dessas águas, a fim de preservar uma qualidade hídrica ainda compatível com abastecimento, conservação e turismo.
Na prática, isso significa que a região já exige uma gestão mais restritiva do uso do solo e dos recursos hídricos, com atuação integrada entre estado e município.
No Parque Nacional da Chapada dos Guimarães, a avaliação é de que a preservação das áreas de nascente é decisiva para manter o equilíbrio de todo o sistema hídrico. O gerente da unidade, Fernando Francisco Xavier, destaca que a proteção da alta bacia é fundamental para garantir tanto os serviços ecológicos quanto a própria experiência turística na região.
“O crescimento desordenado e intenso, com a instalação de condomínios na região aumenta consideravelmente o despejo de esgoto sem tratamento no rio Coxipó. E isso tem responsabilidades que não são propriamente do ICMBio, porque o parque está abaixo dessa área, mas que são dos órgãos ambientais, municipais e estaduais, que precisam fazer o trabalho de proteção da bacia”, afirmou.
Ele alerta que, com o crescimento intenso de condomínios, o problema de saneamento acaba afetando a capital mato-grossense. “Isso impacta diretamente o abastecimento de Cuiabá”.
Já o município afirma que tenta conter esses impactos com regras mais rígidas de ocupação. Segundo o secretário municipal de Planejamento de Chapada dos Guimarães, Aislan Sebastião Cunha Galvão, há critérios mais restritivos que a legislação federal para proteção de nascentes e cursos d’água. “A gente já trabalha com limites mais protetivos em algumas situações, justamente por reconhecer a fragilidade ambiental da região”, afirma.
Essa conexão torna o rio um elo entre diferentes interesses – ambientais, econômicos e urbanos – que já não podem ser tratados de forma isolada.

Foto: Mario Fredlander
Técnicos alertam: proteger a área é essencial para garantir água, turismo e equilíbrio ambiental.
O alerta dos técnicos é claro: proteger essa região não é apenas uma medida ambiental, mas uma estratégia para garantir abastecimento, preservar o turismo e manter os serviços ecológicos que sustentam a Chapada e parte da capital mato-grossense.
Mas, enquanto cresce a importância da bacia, também avança um novo fator de pressão: a expansão urbana acelerada em Chapada dos Guimarães.
Nascentes do Coxipó
O rio Coxipó nasce nas encostas de Chapada dos Guimarães. Uma de suas nascentes está no Horto Florestal do município, de onde diversas contribuições se unem e vão formando um curso d’água que cresce progressivamente. O córrego da Piedade, que dá origem à Cachoeira Véu de Noiva, um dos cartões-postais mais conhecidos de Mato Grosso, é um dos afluentes.
Rio abaixo, o Coxipó segue seu percurso recebendo outros cursos d’água e atravessando diferentes comunidades, ganhando, em cada trecho, um nome local que carrega a história do lugar por onde passa.
Na próxima reportagem: o avanço de condomínios e a transformação do perfil da cidade.