Por Josana Sales
Rios que abastecem o Pantanal carregam resíduos de agrotóxicos que escapam dos métodos convencionais de monitoramento, detectáveis apenas por equipamentos que ficam submersos por semanas, acumulando o que a água traz em pulsos invisíveis. É essa tecnologia que pesquisadores da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) têm aplicado na bacia do Rio São Lourenço, e cujos resultados chegam agora ao centro do debate público.
Nesta semana, o Ministério Público Federal (MPF) promoveu em Brasília o evento “Agrotóxicos no Brasil: Impactos Socioambientais e o Cenário das Políticas Públicas”, e nesta quinta-feira (12) o MPF em Cuiabá recebe o Fórum Mato-grossense de Combate aos Impactos dos Agrotóxicos (FMTCIA).
A pauta do fórum foca na relação entre defensivos agrícolas, saúde pública e desafios climáticos, além da criação de um Plano Estadual de Monitoramento. No evento de Brasília, o professor Ibraim Fantin da Cruz (UFMT) apresentou estudos sobre agrotóxicos no Rio Coxipozinho, no Parque Nacional da Chapada dos Guimarães, também com uso de amostragem passiva.
O limite do método convencional
É nesse ponto que as pesquisas do Instituto de Química da UFMT sobre a contaminação por agrotóxicos nos ambientes aquáticos se tornam uma peça-chave para transformar preocupação em dados.
A engenheira química e doutora em Química Analítica Eliana F. Gaspar de Carvalho Dores, professora aposentada da UFMT e credenciada no programa de pós-graduação em recursos hídricos, estuda há mais de uma década como identificar agrotóxicos em rios e córregos mesmo quando eles aparecem em “janelas” curtas.
Ela explica que a estratégia mais usada em programas oficiais é a amostragem pontual: “Normalmente é utilizada a técnica mais convencional e reconhecida em todos os programas de monitoramento, que é a amostragem pontual, onde você vai com um amostrador, uma garrafa, pega uma quantidade de água num frasco apropriado, conserva e leva para o laboratório e analisa”.
O problema é que, com os pesticidas, a entrada no ambiente aquático não é contínua. “No caso dos agrotóxicos, as substâncias não entram constantemente no ambiente. Quando vem uma chuva, uma enxurrada, os resíduos são carreados para o ambiente aquático. Então, eles entram na forma de pulsos e geram picos de concentração”, diz. Por isso, alerta: “No caso da amostragem pontual, a coleta precisa ocorrer no momento em que esses picos ocorrem. Do contrário, não se detecta nada. E isso é difícil de prever.”

De foto para filme: a lógica da amostragem passiva
A alternativa que a equipe tem testado é a amostragem passiva, com o uso do POCIS (Polar Organic Chemical Integrative Sampler), um dispositivo que fica submerso por dias ou semanas e funciona como um “acumulador” do que passa pela água ao longo do tempo. A lógica é simples de entender: em vez de uma foto, o dispositivo produz uma espécie de “filme” da contaminação. “A técnica de amostragem POCIS foi desenvolvida com o objetivo de deixar um amostrador no campo durante um período em que o dispositivo vai integrar, ou seja, ele vai acumulando tudo que passar por ele ao longo do tempo”, afirma Eliana, explicando que, em um dos testes do grupo, os amostradores foram calibrados para 21 dias, tempo em que permanecem no rio antes de irem ao laboratório.
Da nascente ao Pantanal: o que os dados revelaram
A utilidade prática dessa abordagem aparece em resultados já publicados. Em 2018, Eliana assinou com André Berton e Michelle F. Brugnera o artigo “Grab and passive sampling applied to pesticide analysis in the São Lourenço river headwater in Campo Verde – MT, Brazil” (Journal of Environmental Science and Health, Part B). O estudo avaliou a qualidade da água superficial na nascente do Rio São Lourenço, em Campo Verde (MT), com coletas entre dezembro de 2015 e junho de 2016, combinando amostragem pontual e o uso do POCIS em ciclos de 14 dias.
O trabalho detectou pesticidas mesmo em área com esforços de recuperação de vegetação ciliar, reforçando a vulnerabilidade da região e indicando que a amostragem passiva pode ajudar a capturar concentrações muito baixas, que frequentemente escapam da coleta tradicional.
Em 2024, Eliana integrou equipe de pesquisadores que investigou águas superficiais e subterrâneas em três microbacias da Bacia do Rio São Lourenço, em áreas próximas a lavouras de soja, milho e algodão nos municípios de Campo Verde, Jaciara e Rondonópolis — região estratégica por estar conectada ao sistema que drena para o Pantanal. O estudo, publicado no International Journal of Environmental Analytical Chemistry, constatou que o dispositivo passivo ampliou as detecções e permitiu identificar com mais precisão os períodos de maior ocorrência de agrotóxicos, especialmente durante chuvas e épocas de aplicação.
Para a pesquisadora, combinar as duas técnicas é o caminho mais sólido para políticas de vigilância ambiental. “O que é interessante muitas vezes é você ter a combinação dos dois tipos de amostragens”, afirma — uma registra o instante, a outra acumula a exposição ao longo do tempo. Mesmo quando as concentrações detectadas não são elevadas a ponto de causar impacto imediato, o monitoramento contínuo permite compreender o que ocorre no ambiente e embasar medidas de controle e mitigação da contaminação.

Foto: José Medeiros
O que o laboratório não consegue imitar
Eliana também aponta os limites do método. A calibração em laboratório, por exemplo, não reproduz todas as variáveis do mundo real. “Esse método tem a vantagem de ser fácil de ser feito em laboratório, mas não consegue replicar completamente as condições de campo”, diz. E explica: “no campo, você tem uma água que vai variando – vazão, temperatura, condutividade. Você nunca vai conseguir replicar no laboratório exatamente aquilo que você tem no campo.” Mesmo assim, defende que o ganho de informação compensa, sobretudo para concentrações muito baixas e eventos rápidos: “o limite de detecção desse método é mais baixo, o que acaba permitindo detectar com mais frequência. É mais rico em informação.”
Em uma bacia que deságua no Pantanal, um dos biomas mais sensíveis do planeta, entender como e quando esses contaminantes chegam à água pode ser decisivo para orientar políticas de monitoramento e proteção ambiental