Empresa de Cuiabá transforma madeira descartada da Amazônia em móveis de design
Por Adriana Mendes
No meio da loja, o pé de um tronco maciço, ainda sem destinação definida, chama a atenção. O material preserva suas características naturais e pode ganhar diferentes funções nas mãos da Biomê. Da mesma forma, outras toras de madeira da Amazônia se transformam em mesas, bancos e acessórios que se destacam pela autenticidade, pelas formas orgânicas e pela riqueza de tons no mercado de mobiliário sustentável.
Pioneira nesse segmento em Cuiabá (MT), a Biomê, fundada em 2023, utiliza exclusivamente madeira proveniente de projetos de manejo florestal na produção de suas peças. A essência do negócio está em dar novo destino ao que o mercado madeireiro tradicional descarta.
Marcelo Aquino, sócio e designer da empresa, guarda uma foto emblemática: um tronco oco jogado no lixo de uma serraria, exatamente o tipo de material que a Biomê transforma em peça de design.
É exatamente esse material, descartado pelo mercado convencional, que se transforma em peças únicas, em uma proposta que atrai consumidores em busca de móveis diferenciados e de menor impacto ambiental.
Apaixonado pela Amazônia, Marcelo conta que o negócio nasceu de um hobby. Durante a pandemia de Covid-19, ele começou a produzir peças para familiares e amigos. A partir daí, surgiu a ideia de investir no mercado de móveis rústicos, com maior valor agregado e usando apenas madeira de manejo.
Com experiência de 20 anos em gestão ambiental, o gaúcho criado em Colíder, município de Mato Grosso localizado na Amazônia Legal, explica que a atuação no setor o motivou a provar que é possível utilizar a floresta de forma produtiva sem destruí-la.
“Se eu fizer de forma planejada, posso usufruir da floresta sem exaurir a floresta. Eu quero provar que é possível remunerar toda a cadeia de maneira consciente e sustentável.”

Marcelo também questiona uma lógica histórica do setor: a de deixar madeiras se decompondo na floresta, quando poderiam ser aproveitadas. Ele explica que, ao retirar uma peça da mata e transformá-la em móvel durável, é possível manter o carbono armazenado na madeira por mais tempo, uma forma sustentável de usufruir do recurso natural.
Até a serragem poderá ser reutilizada, como parte da proposta de aproveitar integralmente a cadeia da madeira. Madeiras pequenas, por exemplo, se transformam em mosaicos para parede.
No entanto, grande parte da madeira mato-grossense acaba sendo beneficiada em outros estados antes de voltar ao mercado local como produto acabado.
“A pessoa sai com a madeira daqui e leva para o Sul, beneficia lá e volta depois em forma de móvel. Eu falei: ‘Por que que eu não posso fazer aqui? Por que qude e eu não posso agregar valor numa madeira aqui?'”
Na Biomê, a singularidade de cada peça é uma característica inerente ao processo, e não apenas um argumento de venda. As variações naturais da madeira tornam a reprodução impossível até para quem a criou.
Acho que consigo agregar um valor maior a uma peça diferente. Uma mesa como esta, por exemplo, mesmo se eu quiser, não vou conseguir fazer outra igual”, afirma, mostrando a peça feita com madeira e vidro projetada para seu tamanho específico.
Essa exclusividade, no entanto, tem um limite prático: o trabalho manual impõe um teto de produção que preserva a natureza artesanal da marca.
“Eu não consigo fazer mais do que 15 a 20 peças por mês. E olhe lá… Isso porque tem todo um trabalho manual.”
Madeira da Amazônia boliviana
Atualmente, a matéria-prima da Biomê vem de Ribeiralta, na Amazônia boliviana. Célio Hernani, sócio de Marcelo, atua com manejo florestal sustentável no país vizinho, o que permite o aproveitamento, por exemplo, dos tocos de madeira que a empresa transforma em móveis. No Brasil, segundo Marcelo, essa prática ainda esbarra em entraves burocráticos: obter a documentação adequada para o transporte desse material exige um aditivo ao pedido, o que torna o processo lento e incerto.
Outro obstáculo está no próprio processo de corte. Nas serrarias convencionais, segundo ele, a madeira é serrada de forma a aproveitar os blocos regulares e descartar justamente o que a Biomê busca. “O problema aqui é o processo de corte, porque eles serram tirando aquilo que a gente precisa, o diferencial”, explica o empresário.
Mas trabalhar com madeira da Bolívia também impõe desafios, principalmente por causa da tramitação e do transporte. “Se eu precisar de uma madeira para uma peça, ela só chega daqui a três ou quatro meses”, conta.
Por isso, o olhar da empresa mira também o território nacional. Marcelo está de olho nos projetos de manejo florestal no Pará e no norte de Mato Grosso para passar a comprar madeira diretamente da Amazônia brasileira. Assim, reduziria a dependência do fornecimento boliviano.

Banco Mara Duo, de cedro mara / Foto: assessoria
Validação internacional
Com apenas dois anos de atuação, a Biomê já marcou presença em um dos principais eventos do setor moveleiro mundial. Em abril deste ano, a empresa integrou uma exposição no Salone del Mobile Milano, feira internacional realizada em Milão, na Itália, que reúne empresários do ramo, arquitetos e visitantes de todo o mundo.
A peça levada à feira foi o “Mara Duo”, um sofá de dois lugares em cedro mara, madeira maciça e nobre, criado pelo próprio Marcelo. O resultado superou as expectativas: a peça foi vendida por 8 mil euros.
“Vendi para um italiano pelo dobro do preço que venderia aqui, e a peça foi para Veneza”, revelou.
A experiência confirmou o que Marcelo já intuía: o design brasileiro feito com madeira amazônica tem apelo e valor no mercado de luxo europeu. Agora, além dos contatos para venda de móveis no exterior, ele prepara peças que irão compor um espaço da Casa Cor 2026, em Cuiabá.
Mercado em expansão
A trajetória da Biomê ocorre em um momento de expansão do setor moveleiro em Mato Grosso. Nos últimos cinco anos, segundo dados do Sebrae-MT, o setor registrou crescimento de cerca de 40% no número de empresas formalizadas. A média é de 527 novos negócios por ano, dado que evidencia a força e a expansão da atividade no estado.
Para fortalecer as indústrias regionais, foi firmada uma parceria com a Associação Brasileira das Indústrias do Mobiliário (Abimóvel). Atualmente, 12 empresas participam do projeto voltado ao desenvolvimento, à competitividade e à integração da indústria do mobiliário, entre elas a Biomê.