Contaminação avança na Chapada e ameaça água que abastece Cuiabá

Presença de coliformes fecais em rios da região acende alerta sobre impactos da ocupação na qualidade da água que abastece Cuiabá.

Por Josana Salles 

Os efeitos da pressão sobre a alta bacia do rio Coxipó começam a aparecer. Relatórios sequenciais de balneabilidade da Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema/MT) indicam a presença de coliformes fecais em trechos do rio Coxipozinho, no Balneário Cachoeirinha, dentro do Parque Nacional da Chapada dos Guimarães. Os visitantes também já sentem as consequências.

O professor Ibraim Fantin da Cruz, do Departamento de Engenharia Sanitária e Ambiental da UFMT, e seis alunos monitoraram, entre 2023 e 2025, a qualidade da água do rio Coxipozinho, na cabeceira da cachoeira Véu de Noiva, no parque nacional. Das 18 amostras coletadas, 15% excederam o limite de 1.000 NMP de coliformes fecais previsto na Resolução Conama 357.

No entanto, como o corpo hídrico dentro de unidade de conservação de proteção integral é considerado classe especial — com limite de 200 NMP/100 ml —, 50% das amostras já indicavam contaminação acima do recomendado.

Os dados preocupam porque a área está inserida na unidade de conservação, responsável por proteger parte significativa da bacia. Ainda assim, segundo o gerente da unidade, Fernando Francisco Xavier, o problema tem origem fora dos limites protegidos.

“Quando esses afluentes entram no parque já comprometidos, o risco não é apenas sanitário, mas ecológico: compromete serviços ecossistêmicos, afeta a visitação pública e reduz a qualidade da experiência num bem natural que pertence à coletividade”, afirma.

De acordo com o ICMBio, a presença de coliformes fecais é um indicativo claro de uso e ocupação irregulares na parte mais alta da bacia, no trecho entre o Horto Municipal e a entrada do parque, justamente onde se concentram nascentes e áreas de formação dos cursos d’água.

Na prática, isso significa que a água já chega ao interior da unidade de conservação com qualidade comprometida, ampliando riscos ambientais e também impactos sobre o turismo, uma das principais atividades econômicas da região.

A contaminação por coliformes fecais vem causando impacto no turismo dentro do Parque Nacional da Chapada dos Guimarães. Frequentadores da região do Véu de Noiva têm sido alertados sobre a contaminação e são orientados a não tomar banho no Balneário Cachoeirinha.

Segundo relato do jornalista Tinho Costa Marques, que esteve no local há pouco tempo com filhos e netos, “apenas um dos rios estava liberado para banho por conta de esgoto oriundo de condomínios acima do parque”. A recomendação, repassada pela equipe do ICMBio, vale para todos os visitantes do Parque Nacional. Um cenário que surpreende quem há muito tempo não visitava os rios da Chapada.

O alerta reforça a relação direta entre ocupação urbana e qualidade da água. Em uma bacia que abastece parte de Cuiabá, alterações nas áreas de nascente tendem a se propagar ao longo de todo o sistema hídrico.

Daniela Maimoni de Figueiredo, professora do Departamento de Engenharia Sanitária e Ambiental e do mestrado em Recursos Hídricos da UFMT, afirma que “a contaminação das nascentes do rio Coxipó na área urbana de Chapada é alarmante e pode piorar com os novos condomínios próximos à margem do rio, somada à precariedade do saneamento básico. Ao longo do trecho até Cuiabá, centenas de chácaras de lazer lançam esgoto in natura, enquanto o desmatamento das nascentes e matas ciliares aumenta o assoreamento, tornando o rio mais túrbido e poluído.”

Questionada sobre a contaminação, a Sema informou apenas que faz a análise da água do Rio Coxipó em alguns pontos dentro da sua rede de monitoramento da qualidade da água. “São realizadas coletas trimestrais em 06 estações na bacia do Rio Coxípó, englobando também o Córrego Paciência, o Coxipó-Açu e o Córrego do Moinho.”

A moradora Tiemi Okomura, de Chapada dos Guimarães, afirma que a ausência de rede de esgoto no município faz com que um problema público recaia sobre cada morador. “O saneamento é um serviço essencial, ligado à saúde e ao meio ambiente, e deveria ser garantido pelo poder público. Mas, na prática, são as pessoas que acabam obrigadas a buscar soluções individuais, para tratar seu esgoto e não prejudicar o solo e as águas”, afirma.

Além do impacto ambiental, a contaminação também levanta preocupações sobre a segurança do uso recreativo da água, especialmente em pontos turísticos amplamente frequentados.

Foto: Reprodução/Google

Na próxima reportagem: crescimento urbano sem rede de esgoto amplia risco de contaminação difusa na bacia.

Publicado em