Por Adriana Mendes
No Rio Claro, na Transpantaneira, o leito seco virou paisagem. É ali que Max Paixão de Abreu, 42 anos, guia pantaneiro, vê com preocupação pela primeira vez o rio que acompanha desde os 10 anos nessa condição. “Esse ano secou mesmo. É triste de ver, afirmou.
A ligação de Max com o lugar vem de gerações. “O bisavô morou na beira do Rio Claro, criou minha avó, meu pai nasceu aqui”, conta. A família se mudou para a cidade, mas ele voltou em 2007 e trabalhou dez anos na pousada. Hoje atua como guia freelance e precisa explicar o rio seco aos turistas.
“A gente conta uma história de tristeza”, afirma. Sem formação de biólogo, ele diz ter aprendido o que sabe com os avós e o pai. Em sua leitura, a usina do Manso, os garimpos e os aterros que cortaram canais do rio ajudaram a chegar a esse ponto, e a chuva, que vem diminuindo há uns 12 anos, agravou o quadro.
Max lembra que o Pantanal não depende só da chuva local. “O que enche o Pantanal não é tanto a chuva como as nascentes. Nós dependemos de Chapada dos Guimarães, da chuva de Cuiabá, do cerrado para a água descer para cá”, explica. Com barragens e garimpos pelo caminho, a água chega menos. “Onde já se viu, hoje no Pantanal a gente ter que cavar poço para sobreviver, sendo que o Pantanal é o maior alagado do mundo?”, questiona.
O Ministério Público de Mato Grosso (MPMT) investiga, por meio de inquérito civil, intervenções em estradas e canais da planície pantaneira de Poconé. Em outubro, o município foi notificado pelos promotores Joelson de Campos Maciel e Mário Anthero Silveira de Souza Bueno Schober. Segundo o MP, aterros e estruturas de drenagem feitos em estrada vicinal estariam prejudicando o escoamento natural entre o Rio Cuiabá, seus corixos e as áreas inundáveis.
A notificação que o Eh Fonte teve acesso se baseia em um relatório técnico. A equipe da geóloga Sandra Márcia de Laet percorreu cerca de 16,1 km de estrada vicinal, com acesso pela Estrada Parque de Porto Cercado (MT-370), e contou com a participação de técnicos da Secretaria de Estado de Meio Ambiente (SEMA-MT). Em um dos pontos, há uma ponte de madeira construída pela prefeitura com um aterro de cerca de quatro metros de altura dentro do canal, o que impede a passagem integral da água.
Em outro ponto, ainda de acordo com o relatório, um canal que naturalmente tem entre 16 e 18 metros de largura passou a superar 42 metros nas áreas alteradas, e uma avaliação hidráulica anterior estimou um déficit de 96% na capacidade das estruturas existentes no cenário então analisado. O relatório posterior registrou que a instalação de um tubo metálico reduziu esse déficit, mas não garantiu capacidade suficiente para a vazão esperada na cheia. O estudo identificou dois aterramentos sobre o mesmo curso d’água, o Rio Velho.
O documento também menciona possível repercussão sobre o Rio Claro, mas ressalta que são necessários estudos mais detalhados para confirmar a conexão. O MP recomenda, entre outras medidas, a retirada controlada dos aterros, a avaliação prévia da ponte, o controle de erosão e a destinação adequada do material removido.
O prefeito de Poconé (104 km ao sul de Cuiabá), Dr. Jonas (Podemos), afirmou que vai cumprir as recomendações do MP. “Vamos atender, tudo de acordo com a nota recomendatória que foi enviada”, garantiu. De acordo com ele, a ponte é a única estrutura feita em sua gestão, justificando que antes havia um tubo de cerca de 2,5 metros de diâmetro, com vazão bem menor.
Os prazos fixados pelo MP para as primeiras providências (24 horas para informar se acolhe a recomendação e 48 horas para apresentar o plano de intervenção e o cronograma) já venceram, contados do recebimento da notificação, que, segundo o prefeito, ocorreu na segunda-feira (19). No entanto, o prefeito diz que a prefeitura vai cumprir as recomendações até esta sexta-feira (23).
Sobre os demais pontos citados, Dr. Jonas justificou que a situação é antiga. “Essas manilhas não foram colocadas agora, elas têm décadas lá. Isso tem quase 40 anos”, declarou. A ideia, segundo ele, é minimizar o problema, de modo que os trechos desobstruídos facilitem a passagem da água caso o volume seja suficiente para encher o Pantanal. O relatório aponta ainda outras passagens de água prejudicadas por estradas elevadas ou drenagem inadequada.
À reportagem, o prefeito reconheceu o avanço da seca na região como “algo notório”, e afirmou que a prefeitura procura tomar medidas para minimizar o impacto. “A gente não pode esquecer dos ribeirinhos, dos moradores que precisam ter acesso. Estamos tentando resolver a questão ambiental sem esquecer a questão humana”, ressaltou .