Bruno Alves Vieira*
Minha história com o Cerrado começou por volta de 1994, quando eu ainda era criança. Guardo lembranças muito especiais dos fins de semana em que meu pai levava meus irmãos e eu para tomar banho no Rio Coxipó, em Cuiabá. Foi ali que aprendi a nadar e vivi alguns dos momentos mais felizes da minha infância.
Esses passeios eram aguardados com muita expectativa. Meu pai dividia sua rotina profissional entre a vigilância e a construção civil e, por isso, nem sempre tinha disposição ou tempo para nos levar. Quando conseguíamos ir, porém, aquele momento se transformava em um verdadeiro ritual familiar. Brincávamos no rio, explorávamos a natureza e, mais tarde, também levávamos nosso cachorro Rubim.
Naquela época, o bairro Tijucal ainda estava em seu processo inicial de ocupação e havia poucos bairros ao redor. O Cerrado era abundante e fazia parte da paisagem cotidiana. A Avenida das Torres ainda não existia, assim como diversos condomínios que hoje ocupam a região. Entre eles está o Flor do Cerrado, cuja construção, de forma contraditória ao próprio nome, praticamente eliminou a vegetação existente no local.
Com o passar dos anos, Cuiabá vivenciou um intenso crescimento populacional. Novos bairros, avenidas, condomínios e empreendimentos surgiram no entorno do Tijucal. O ponto do Rio Coxipó onde costumávamos nadar ganhou uma ponte, e a Avenida das Torres passou a ligar diferentes regiões da cidade.
Entretanto, a expansão urbana e a infraestrutura de saneamento básico não avançaram no mesmo ritmo. Gradualmente, foi possível perceber a degradação do Rio Coxipó e de suas matas ciliares. Áreas antes ocupadas pela vegetação deram lugar a condomínios, estabelecimentos comerciais e até a um posto de combustíveis. O rio que marcou minha infância começou a apresentar sinais cada vez mais evidentes dos impactos provocados pela ocupação desordenada.
Durante os períodos de seca, os moradores da região passaram a conviver com um odor extremamente forte e desagradável. O problema era percebido por todos, mas sua possível origem permaneceu desconhecida por muito tempo.
Em 21 de setembro de 2021, identifiquei, nas proximidades do Rio Coxipó, uma extensa área com aparente acúmulo e despejo de esgoto. Além do mau cheiro, a situação indicava possível contaminação do solo, das águas e do próprio rio. Registrei imagens do local e encaminhei uma denúncia ao Ministério Público, solicitando a apuração dos fatos e a identificação dos responsáveis pelo dano ambiental.

Cinco anos depois, o procedimento de investigação ainda não apresentou uma resposta capaz de esclarecer quem provocou o problema ou quais medidas efetivas foram adotadas para interromper a degradação e recuperar a área.
O sentimento que permanece é de frustração e impunidade. Também existe a percepção de que problemas de saneamento e degradação ambiental ocorridos em bairros periféricos não recebem a mesma atenção e rapidez observadas em regiões de maior concentração de renda. Enquanto se aguarda uma solução, os moradores continuam convivendo com o mau cheiro, e o meio ambiente permanece exposto aos possíveis danos.
Compartilho esta história porque o Rio Coxipó não é apenas um curso d’água. Ele faz parte da memória de muitas famílias cuiabanas, da história do bairro Tijucal e da identidade do Cerrado mato-grossense. Preservá-lo significa proteger nossas águas, nossa biodiversidade, nossa saúde e o direito das futuras gerações de conhecer o rio que um dia fez parte da minha infância.
Minha expectativa é que este relato contribua para dar visibilidade ao caso, incentive a apuração responsável dos fatos e ajude a transformar uma espera de cinco anos em ações concretas de fiscalização, responsabilização e recuperação ambiental.

*Bruno Alves Vieira, é economista, morador do Tijucal em Cuiabá (MT).
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