Por Josana Salles
A baixa permeabilidade do solo na região de Chapada dos Guimarães, somada aos extremos de chuva e seca, forma uma combinação de fatores extremamente delicada. Se em 2026 o município foi assolado por alagamentos, em 2021 a seca prolongada esgotou córregos e até a icônica Cachoeira Véu de Noiva – principal cartão-postal local – enfrentou níveis extremamente baixos de água, chegando a ficar praticamente seca.
Um parecer do Conselho Municipal de Turismo (Comtur), com base em análise técnica e revisão da especialista Daniela Maimoni de Figueiredo, apontou que o fenômeno não teve uma única causa.
Entre os fatores identificados estão a estiagem severa, a redução das chuvas no ciclo anterior, os incêndios florestais, a degradação de áreas de preservação permanente, a expansão urbana desordenada e as captações de água a montante que não consideram adequadamente a sazonalidade.
O documento também levanta questionamentos sobre o volume de outorgas concedidas, a fiscalização das captações e a “compatibilidade entre os diferentes usos da água — como abastecimento, turismo e conservação ambiental”.
O episódio expôs, de forma concreta, os limites de um território que cresce, mas depende de um sistema hídrico sensível e vulnerável.
A explicação é simples: segundo o professor de Geologia da UFMT, Prudêncio Rodrigues de Castro, o predomínio de argilito – rocha impermeável – dificulta a infiltração da água da chuva. Assim, em períodos de chuva intensa, ela escorre pela superfície; já na seca prolongada, o lençol freático fica sem recarga. “Seca tudo, Chapada fica sem água”, resume o especialista.
Na avaliação do superintendente de Meio Ambiente de Chapada dos Guimarães, Marcos Antônio Sguarezi, soluções simplistas podem agravar o problema. Segundo ele, a perfuração de poços artesianos, muitas vezes vista como alternativa, pode comprometer ainda mais as nascentes.
“A região está em uma área extremamente frágil, formada por mananciais de superfície. Não é possível imaginar um grande estoque subterrâneo disponível como solução fácil”, afirma.
Como alternativa, ele defende estratégias de retenção e infiltração da água, como reservatórios, barraginhas e o conceito de “cidade esponja”, que busca aumentar a recarga do solo e reduzir o escoamento superficial.
A proposta é inverter a lógica tradicional de drenagem urbana, permitindo que a água infiltre, alimente o lençol freático e sustente os cursos d’água nos períodos de estiagem.

Foto: Google
Impasse entre crescimento e preservação
No centro desse debate está um impasse: como conciliar crescimento urbano, abastecimento, turismo e preservação ambiental em uma mesma bacia.
O rio Coxipó, que nasce nas áreas altas, atravessa zonas urbanizadas, alimenta cachoeiras e segue em direção a Cuiabá, conecta todos esses interesses.
Proteger sua bacia não é apenas uma questão ambiental. É uma decisão sobre o futuro da Chapada dos Guimarães e sobre a segurança hídrica de parte da capital mato-grossense.