Por Josana Salles*
Com uma atuação de 10 anos, o Centro de Pesquisas Científicas (CTECNO) da Aprosoja, em Campo Novo do Parecis, desmistifica a ideia de que a ciência está distante da realidade prática no campo. Na verdade, ela surge como a melhor aliada do agronegócio para aumentar a produtividade de culturas-chave, como soja e milho, além de preparar os agricultores para enfrentar os desafios das mudanças climáticas.
De acordo com o ex-ministro da Agricultura Antônio Cabrera, os números demonstram que a ciência é essencial para o sucesso do plantio no Brasil. “Não devemos reclamar da ciência porque o agronegócio brasileiro deve usar o conhecimento para garantir produtividade, rentabilidade e sustentabilidade ambiental. A ciência está mostrando que o plantio de soja e milho sequestra carbono, protege o solo e respeita os recursos hídricos. Isso não acontece em outros países”, afirmou em visita técnica ao centro.
O CTECNO Parecis é uma das principais estações experimentais voltadas à pesquisa agropecuária no estado de Mato Grosso. Em uma área de 86 hectares, os cientistas realizam experimentos de longa duração, analisando como os manejos de solo e sistemas de rotação de culturas podem impactar a produtividade e a sustentabilidade. Atualmente, são conduzidos entre 35 e 40 experimentos por ano, com duração de até oito anos, permitindo identificar resultados consistentes ao longo do tempo.
A Aprosoja reuniu cerca de 470 participantes nesta quarta-feira (15), entre produtores rurais, agrônomos, consultores e representantes do setor, em palestras e discussões sobre práticas que impactam o campo.

Ex-ministro da Agricultura, Antônio Cabrera/Foto: Aprosoja
Pesquisas no campo
Para Daniela Facco, pesquisadora especialista em solos do CTECNO Parecis, os resultados indicam que práticas conservadoras, como a rotação de culturas e o uso de cobertura vegetal, são cruciais para a preservação do ambiente agrícola. “O que buscamos é ver como os manejos praticados hoje vão performar no futuro. Muitos produtores desistem das práticas antes de perceber os resultados, que muitas vezes só aparecem no longo prazo”, explica.
Além disso, o trabalho conjunto em solos de diferentes texturas, como os médios e arenosos, possibilita análises comparativas entre os locais. Essas pesquisas mostram que os solos brasileiros, naturalmente pobres em nutrientes, precisam passar por correções químicas e biológicas específicas para atingir seu pleno potencial. Elementos como calcário, fósforo e potássio são essenciais para a adubação, enquanto estratégias ajustadas ajudam a prevenir perdas de nutrientes, especialmente em solos arenosos.
Soja-braquiária: o destaque da rotação de culturas
Entre as práticas avaliadas no CTECNO Parecis, o sistema de rotação de culturas com soja e braquiária tem se destacado como o mais rentável e sustentável. De acordo com o agrônomo André Somavilla, do Centro de Pesquisa do Araguaia, o sistema alia baixo custo com estabilidade produtiva ao longo do tempo. “Ele mantém o carbono no solo, controla nematoides e promove o maior aproveitamento do ambiente de produção”, afirma.
Os benefícios do sistema vão além da estabilidade econômica. Ele também favorece o pilar ambiental, reduzindo a lixiviação de nutrientes e o escoamento para corpos hídricos. No entanto, o sucesso dessas práticas depende da adaptação a cada região. “Em Mato Grosso, os resultados podem variar conforme o teor de argila nos solos. Sistemas como o soja-milho são mais vantajosos em áreas com maior concentração de argila, enquanto o soja-braquiária tem uma performance superior em solos de textura média a arenosa.”
O potencial do Brasil
O ex-ministro Antônio Cabrera ressaltou que iniciativas como esta em Mato Grosso colocam o Brasil na vanguarda da produção agrícola sustentável. “Produzir com menor emissão de carbono é um diferencial competitivo, especialmente em um mundo que busca a sustentabilidade”, destacou.
A percepção também é compartilhada por Lucas Costa Beber, presidente da Aprosoja. “O plantio de soja e milho no Brasil sequestra em média 1,9 tonelada de carbono por ano. Esse saldo é calculado considerando todas as emissões e capturas de carbono. Não há nada igual no mundo”, afirmou.
Para Beber, iniciativas como os centros de pesquisa da Aprosoja, instalados em pontos estratégicos no estado, são essenciais para refinar essas práticas e disseminar seu uso.

Palestra no Centro Tecnológico de Campo Novo do Parecis
Ciência no agronegócio
Para os pesquisadores, o avanço de sistemas sustentáveis no campo depende da continuidade das investigações e da adoção gradual pelo produtor. Os experimentos conduzidos em Mato Grosso indicam que práticas como rotação de culturas e manejo do solo podem trazer ganhos ambientais e econômicos no longo prazo, mas ainda enfrentam desafios de adaptação regional e de incorporação tecnológica.
Os resultados mapeados no centro de pesquisa ajudam a orientar esse processo. Ao identificar quais sistemas funcionam melhor para diferentes tipos de solo e condições climáticas, os projetos buscam reduzir riscos produtivos e ampliar a eficiência da lavoura. Para agricultores e técnicos, a expectativa é que as evidências geradas em campo sirvam de apoio a decisões dentro da porteira e acelerem a transformação de práticas ainda restritas a parte do setor.
*Josana Salles viajou para Campo Novo do Parecis a convite da Aprosoja.